O novo século XXI, o novo normal e o novo futuro

Autor: Paulo Bandeira de Mello. – Business Advisor, autor e CEO da Casa Darwin Evolutio.

 

Vuca! Para os mais desavisados, pode parecer um neologismo de comunidades das periferias das grandes cidades; ou, então, um neologismo de verão,  introduzido nas areias das praias icônicas de nosso litoral sob o sol do verão.  Na verdade, VUCA é um acrônimo criado pelo exército americano, ao fim da guerra fria, que  procura  descrever as novas e diversas situações e configurações de guerra, como ambientes voláteis (volatility), incertos (uncertainty),  complexos (complexity) e ambiguos (ambiguity).

A modernidade líquida

Uma expressão, no campo militar,  de um novo inconsciente de nossa civilização, que se consolida na virada do século XXI, muito bem capturado por Bauman em seu conceito de modernidade líquida. Nele, o filósofo polonês apropria-se do termo líquido para fazer analogia ao estado da matéria que mais se transforma.

Assim, Bauman ensaia que o homem dessa modernidade líquida é considerado fluido, com grande flexibilidade de adaptação e diversas mudanças comportamentais, intelectuais e sentimentais, acompanhando o ritmo de transformação da nova sociedade.

Estavam, assim, escancaradas as premissas do que seria o século XXI que nos espreitava na curva. Seriam, estes, os novos tempos da “Era de aquários” como propugnava os versos da música tema do musical “Hair” de 67, mais tarde adaptado para o cinema?

A alvorada da era de Aquários

O fato, é que os versos “… the dawninig of age of aquarious …”, assim como toda a obra,  consolidava a cultura jovem (na verdade a contracultura) que havia ensaiado seus primeiros passos, na década de 50. A afirmação de uma geração de jovens que se empoderavam em resposta ao protagonismo e sacrifício de outros jovens em atuação nos campos de batalha europeus na 2ª. Grande guerra.

O mundo nunca mais seria o mesmo e os reflexos desse empoderamento seguem em marcha até os dias atuais.

“O mundo nunca mais será o mesmo” é o que, igualmente, passamos a ouvir nesses tempos de pandemia. Na verdade,  já havíamos ouvido isso, na voz do locutor em off, que narrava em tempo real, para expectadores estarrecidos, a audácia de terroristas no atentado às torres gêmeas em Nova York.

O novo normal

Parece que os generais americanos e Bauman estavam com razão. Parece, também, que Cazuza estava com razão quando, como arauto de sua geração, afirmou que via “… um museu de grandes novidades …”.

Parece que a pandemia homologou, vaticinou,  certificou e retirou o véu sobre o que já andavam “falando pelos guetos e no breu das tocas“!

Apertem os cintos, o século XXI vai começar de novo!

É interessante observar o imenso exercício de especulação que fazem sobre o  que será esse “novo século XXI” que ganhou como alcunha a expressão  “o novo normal”, capaz de abrigar convicções antagônicas: um certo armagedon pós-moderno, em que Bauman se apressaria em me corrigir para “armagedon fluído”.

Na verdade, creio eu, esse será o “novo normal”, já me apropriando dessa expressão para o novo século XXI: a fluidez de nossos tempos imposta pela dicotomia das convicções, que nos expõe a navegar por “águas” mais do que voláteis, incertas, complexas e ambíguas. Diria eu, propriamente caóticas …, mas isso já é outra história para outro post.

O  pensamento humanista em face da aceleração tecnológica

Na verdade, creio que as marchas e contramarchas do contraditório dialético expresso, por um lado, por  uma visão técnico-científica e, por outro, por uma visão humanista de nossa civilização vão impor o ritmo, a direção e o sentido de sua síntese.

Eu vejo como expressão máxima do vetor técnico-científico, o conceito proposto por Ray Kurzweil, diretor de engenharia do Google: o ponto de singularidade tecnológica que expressa o avanço e utilização da transformação digital como destino implacável de nossa civilização.

O ponto de singularidade

Para Kurzweil, a singularidade é aquele momento em que todos os avanços tecnológicos, particularmente em inteligência artificial (IA), levarão a máquinas mais inteligentes que os seres humanos, transformando-nos em “seres” de segunda classe (complemento meu).

Nesse sentido, nossa civilização marcharia rumo a essa profecia, de tal modo que ela se “autorrealize”, em face de uma corrida frenética, ágil e veloz de empresas, instituições de ensino e pesquisa para alcançar vantagens competitivas em um mundo cada vez mais tecnológico,  competitivo e seletivo. Em alguma dimensão, é o que tem marcado esses primeiros vinte anos desse já “velho século XXI”.

A evolução humanista

Por outro lado, eu vejo como expressão máxima do vetor humanista, uma evolução espiritualista do indivíduo, levando nosso mundo a um suposto estado de regeneração, conforme expressada em diversas correntes de pensamento espiritualista, mas que também encontra eco em uma dimensão pragmática, como a agenda 2030 da ONU, onde apresenta o conjunto das ODS’s para um mundo mais sustentável. De fato, já reconhece uma certa  mudança de comportamento do consumidor, mais preocupado com o impacto holístico do nível do comportamento ético das empresas

Fica muito clara essa percepção quando se nota o sucesso do conceito proposto por Simon Sinek à cerca dos “círculos de ouro”, onde visa reforçar a importância do propósito das empresas em sua atuação nos mercados; uma visão mais humanista de suas responsabilidades.

A princípio, parece haver um fortalecimento dessa visão humanista, em face do impacto da pandemia no consciente e inconsciente dos indivíduos:  pessoas estão  mais atentas  a reconhecer a interdependência das relações em uma visão mais humanitária.

Visão de curto prazo versus longo prazo

A meu conceito, são menos importantes as consequências de curto prazo, que retratam mais a forma de se lidar com o momento atual que, como bem diria Bauman e os militares americanos, é fluida, volátil, incerta, complexa e ambígua; enfim … transitória e passageira.

O que mais me importa são as narrativas, apropriadas pelos diversos agentes ao redor do planeta, que professam um ou outro interesse, ou apenas alinham-se a um ou outro interesse por questões particulares. E mais, como essas narrativas vão interagir na construção da mentalidade do novo indivíduo que emerge deste cenário insólito que vivemos.

No fundo, creio que é a mentalidade dos indivíduos, resultante dos embates num ambiente fluído e caótico que vai determinar qual sociedade teremos; não as profecias que querem se autorrealizar.

A construção de uma nova mentalidade

O caminho se faz na caminhada. Não há linha de chegada demarcada. Somos todos cocriadores dos tempos que viveremos, a partir da capacidade que temos de influenciar e sermos influenciados em face de crenças e convicções, que também são fluídas e caóticas.

Enfim, costumo dizer que sou um otimista por necessidade. Confio no ser humano e em sua marcha evolutiva implacável para um mundo melhor. Confio no progresso que já fez a geração millenials e, principalmente, a geração que emerge no ventre desse momento histórico, como emergiu uma juventude no pós-guerra no século XX.

Creio que o avanço tecnológico, predito por Kurzweil, haverá de se harmonizar com nossa dimensão humana  para um futuro mais próspero para toda a humanidade.

Mas o futuro que espero não está posto. Não é  profecia ou predição. Também não é apenas expectativa e desejo. É uma  vontade ativa, traduzida em trabalho e esforço de ação e convencimento, que começa hoje e se propaga no tempo e no espaço por um mundo melhor.

 

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