Como as Startups Podem se Tornar uma Ferramenta de Inovação para Grandes Empresas?

Autor: Gil Vicente Gama – Advogado –  www.gilvicentegama.adv.br

 

 

“O investidor brasileiro tem perfil mais imediatista do que os do exterior, onde é mais comum que o acionista mantenha seu dinheiro em empresas com perspectivas de retorno a longo prazo. ” Com esta frase, em meados de 2013, o empresário brasileiro Eike Batista deu início a uma derrocada empresarial que lhe custou, em menos de dois anos, o derretimento de uma fortuna da ordem de 20 bilhões de dólares. Eike Batista talvez tenha sido o melhor (e talvez o pior) exemplo do tão (ou quão) longe que um brasileiro pode se arriscar, além daqueles que o seguiram em território de capital de risco, ou “venture capital”, como é chamado no mundo todo.

Na mesma época em que Eike registrava o seu exemplo do que não se deve fazer em matéria de empreendedorismo, o Global Entrepreneurship Lab do MIT Sloan Management divulgava um estudo que colocava o Brasil como um mercado emergente, porém de forma moderada, para a indústria do Venture Capital mundial. Na ocasião, registravam-se algo em torno de 20 VCs (companhias/fundos) internacionais e 10 nacionais que atuavam no país, o que colocava o país na 36ª posição do ranking global entre os 161 países medidos – três anos antes (2010), o país estava na 44ª posição, muito atrás dos outros integrantes dos BRICs e demais países considerados em desenvolvimento.

A indústria mundial de private equity e venture capital (PE/VC), da forma como a conhecemos, só começou a existir formalmente em 1946, nos EUA (Gestora ARD). No Brasil, no entanto, essa prática só foi iniciada na década de 1980 e o seu marco legal, a partir da Instrução CVM n° 209, de 25/3/1994, que dispõe sobre a constituição, o funcionamento e a administração dos chamados Fundos Mútuos de Investimento em Empresas Emergentes.

Os Norte Americanos nos ensinaram, dentre outras coisas, que a indústria de PE/VC evolui na medida em que se aprimora o ambiente institucional no qual ele se insere. Como diz o ditado: “Ninguém tropeça em montanha”. Para formar gigantes da indústria mundial, a partir de uma garagem, como foi o caso da Google, Yahoo, Microsoft e Apple – todas surgidas a partir de investimentos originados de fundos de VCs -,  são necessárias a tomada de medidas de baixa complexidade e muita vontade institucional, muito distantes das opções feitas pelo Brasil nas últimas décadas.

Quer espantar investidores? Faça como o Brasil em quatro estágios: 1) Crie um sistema complexo de impostos; 2) Deixe o governo regular os negócios, por meio de uma complexidade de procedimentos que consome tempo e dinheiro de quem quer começar e fechar uma empresa; 3) Fomente leis restritivas de trabalho, que tornam um desafio o momento em que é preciso escalar o negócio de maneira rápida, criando problemas a longo prazo; 4) Invista em um sistema de educação defasado, de aversão cultural ao empreendedorismo e que reduz a quantidade de capital humano para a criação de tecnologias.

Segundo o relatório “Doing Business 2014/2105”, editado pelo Grupo Banco Mundial, a Nova Zelândia é o país onde é mais fácil abrir um negócio dentre 189 economias estudadas pelo Banco Mundial. Lá, empreendedores são capazes de abrir uma empresa em menos de um dia (Fazendo Negócios, em português). No Brasil, são necessários 107,5 dias para criar uma empresa, o que coloca o país na 123ª posição do ranking. Além disso, é preciso quatro anos para resolver casos de insolvência (quando a empresa encerra as atividades com dívida) e há 14 procedimentos para registrar uma propriedade num prazo de 30 dias.

Dentre as economias que mais melhoraram o seu desempenho nas áreas analisadas pelo relatório Doing Business no ano 2013/2014, o Brasil ficou atrás do Tajiquistão, Benim, Togo, a Costa do Marfim, o Senegal, Trinidad e Tobago, a República Democrática do Congo, o Azerbaijão, a Irlanda e os Emirados Árabes Unidos.

Com este cenário, no Brasil, segundo dados da ABVCAP – Associação Brasileira de Venture Capital e Private Equity e da Auditoria KPMG, a indústria de capital de risco já orbitou na casa dos 100 bilhões de reais de capital para investimento, enquanto que nos Estados Unidos essa quantia é 20 vezes maior. A relação entre o capital investido por ano e o Produto Interno Bruto também ilustra essa defasagem: é cerca de três vezes menor aqui do que em países desenvolvidos. O mesmo se repete com o número de gestoras. Enquanto nos Estados Unidos existem mais de 700, apenas de venture capital, no Brasil esse número nunca chegou a 100.

Na província de Guangdong (onde estive em 2010), próxima de Hong Kong, na Zona Franca de Shenzhen, responsável por tirar a China da inércia econômica e torná-la uma grande potência mundial, as autoridades locais costumam dizer “muito obrigado” a brasileiros que visitam o local e sabem o motivo? Shenzhen foi inspirada na Zona Franca de Manaus.

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